Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Sopro

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Às vezes não se sabe
o que é longe, o que é perto
que diferença faz
se as estradas parecem infinitas
se os muros
parecem encostados
aos espaços que se abriram
nos teus olhos.
Que diferença faz
se as árvores soltas à vastidão do vento
ainda transfiguram o rumor do ar,
esse som da infância imaginada.
De que serve saber
se o vulto que se move sobre os muros
convoca em ti o verdadeiro olhar
como se pressentisse o esquecimento.

Talvez seja apenas um vulto casual
atravessando a tua tarde pobre.


#43. Giovanni Bellini, fragmento de pintura.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Ainda

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Silêncio,
a casa ainda guarda os sítios do silêncio,
caminho dentro dela em pensamento
e encontro à minha volta a tua ausência.

Medo,
solto-me do medo e digo para mim
que os teus passos mansos permanecem,
vejo na janela a luz da lua
e digo que é um rasto de infinito.


#42. Lucio Fontana, fragmento de pintura/objecto

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Ar

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Não trago prendas hoje
talvez traga
outro dia qualquer
não trago prendas
para te prender
és sempre tão livre,
ao abrir as portas altas
talvez nem te veja no lugar,
rodeada de livros
e de linhos bordados
talvez nem te veja
pouco importa, estás
em toda a parte
como o ar,
talvez traga prendas
outro dia qualquer.


#41. Henri Fantin-Latour, fragmento de pintura.

Domingo, Julho 12, 2009

Rua chã

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Pensamento vagabundo vai.
Se encontrares uma rua chã,
entra no silêncio
que
por dentro selou todas as portas.
Demora-te à escuta dos sons antepassados
sobrevoa as casas sobrevoa as próprias aves
olha devagar as sombras
altas.
Enfrenta o mistério dos espelhos,
pensamento vagabundo segue.
Suporta a insuportável lucidez dos órfãos,
os seres que foram tocados, digo assim,
pela luz rasante das terras antigas.
Sobrevivem agora no meio da multidão,
na cidade longínqua.

Mil anos passaram
e os olhos dos órfãos já não se reconhecem
algures na rua tão perto da dor.


#40. Victor L., fragmento de fotografia.

Sexta-feira, Março 27, 2009

Agora

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Hoje quero lembrar
as estradas percorridas
entre a terra e o céu e o sonho,
isto aconteceu
quando havia infinito.
O chão era chão
eram nossos os passos
e mesmo o silêncio
consistentemente entretecia
a força da palavra.
Não havia casas sem janelas
nem portas vedadas ao frio dos teus ombros,
isto aconteceu
quando havia infinito.
Agora há o tempo,
as árvores partiram com os pássaros.
Todas as noites nos levam
para longe das estradas
e dos livros que morreram.
Todas as noites a lua
ilumina o lugar que ficou.


#39. Vittore Carpaccio, fragmento de pintura.

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

De noite

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Enfrentas os olhares
com o teu sorriso de presença,
rosto virtual do teu anonimato,
a máscara do medo.
Talvez por isso chores quando chove
e o céu pesadamente se transforma
no telhado opaco da paisagem.
Talvez por isso grites
no silêncio das noites,
como se escorresse chuva
do teu próprio peito.

Dorme,
deixa o pensamento flutuar
na memória dos sons.



#38. Hans Hartung, fragmento de desenho.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Passos

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Atravesso outra vez estas portas
à procura da sombra longínqua
que havia nas searas
e nos olhos voltados para sul,
atravesso os ventos
em direcção ao princípio das coisas
sem saber que coisas são,
talvez lugares
ou seres parados a meio do caminho
rente aos séculos das árvores.
O pensamento desce até ao chão
onde o som dos teus passos permanece
pedra a pedra enfrentando o silêncio.



#37. Mark Rothko, fragmento de pintura.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Ano 2
Índice por imagens

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Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Disse

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Eu disse sem esforço
a palavra remota
e a barca emergiu da maresia
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Dolorosa ternura
na distância das serras caladas,
uma sombra suspensa para toda a vida
e em cada noite
a tua mão tão pura.


#36. Anónimo (c.1900), fragmento de fotografia.

Sábado, Outubro 04, 2008

Ponte

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Vem de longe o teu medo
em tão alta torre recolhido, tu dizes
que não sabes viver ao pé de ti, mas repara
na amplitude das pontes quando aceitas
os gritos que te cercam,
a tenebrosa noite.
Repara nos filhos que te dão à luz
pela permanência de uma pétala,
uma pétala apenas
da flor que recita o teu caminho.


#35. Fernando Lemos, fragmento de fotografia.

Sexta-feira, Setembro 12, 2008

Ela

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Ela abria as asas
de manhã
para voar ao sol por cima dos telhados
e eu pensava que os anjos

eram aves que voavam como ela.

Nas varandas o seu riso cintilava

com o céu por cima parecia deusa

mas também chorava e parecia louca

e de noite lia grandes livros
talvez morassem sábios dentro dela.


Quando a neve lhe cobriu o peito

ela estendeu-se ao longo dos caminhos
quase rainha num trono rente à terra

e eu vi folhas de vida, digo assim,
a desprender-se dela
árvore ao vento

onde de repente anoiteceu.


#34. Manuel Zimbro, fragmento de pintura.

Domingo, Agosto 17, 2008

As casas

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De noite as casas saem dos esconderijos,
curvam-se sobre a solidão dos seres
e os seres correm desvairados
gritando inocência.
As casas atiram o silêncio contra a noite,
rasgam as páginas dos livros sagrados
e no fundo insuportável dos corredores
os seres solitários
começam a abrir os braços lentamente
e a visitação desce sobre eles
e então as casas sossegam
para guardar a luz mansa de outros seres
que nelas renasceram para sempre.


#33. Johannes Vermeer, fragmento de pintura

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Rasto

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Viemos de longe
e não soubemos lavrar as terras
em que os teus olhos se deitaram.
Não colhemos um só ramo de roseira
enquanto percorremos o teu rasto,
enquanto procurámos os teus passos
no mistério das pedras. E eu pergunto
quem resgatará o sonho que o menino chora,
quem abrirá as portas à breve sombra
do gato que chama da infância,
quem passará mil noites
à escuta de tão manso respirar.


#32. Rui Chafes, fragmento de escultura.

Domingo, Maio 25, 2008

Vidro

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Ela sorria através do vidro baço,
a chuva a bater-lhe no pensamento aberto
das estradas.
Na outra margem da memória
o homem encostou-se ao olhar dela
e a voz infinita
atravessou a chuva: mãe,

porque me olhas assim?

No deserto de água o homem
a olhar e a sorrir,
a mulher a recolher-se aos olhos dele
e a voz solitária da viagem
a crescer dentro da chuva: filha,
porque me esperas assim?


#31. Giorgione, fragmento de pintura.

Domingo, Abril 27, 2008

Dia

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De súbito os sítios não estão onde estavam,
o tempo que se perde antes de olhar
as casas pouco a pouco tão secretas.
De tudo o que ficou pelo caminho
o pensamento guardou algumas vozes,
a claridade dos primeiros muros
onde o vento que vinha de longe
se demorava na nitidez dos sons.
Folheados em noites distantes
só os livros permanecem nas casas
como estátua pura,
rastos de luz a percorrer o dia.


#30. Joaquim Bravo, fragmento de pintura.

Domingo, Março 09, 2008

Sei

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Sim, guardo os séculos
que os teus dedos teceram.
Conservo as tuas flores
nas casas decepadas,

varandas atiradas contra o vento,

portas abertas à terra
à nascente dos rios
aos caminhos
que os teus passos percorreram.


Sei agora que nunca morreste,
vejo os teus olhos antigos de menina
adormeço no teu vestido frio.


#29. Laszlo Moholy-Nagy, fragmento de fotografia

Segunda-feira, Março 03, 2008

Mater

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As crianças quando nascem
vão morar no alto
dos pássaros e dos ramos
das árvores grandes
que tornam infinitos os jardins.


Por vezes as crianças

descem às nossas sombras
para nos confiar leves segredos.
Se ouvires o que diz o riso delas
sentirás o vento
que dança no cimo do mar.

Se olhares a luz que te procura
pede à luz uma flor.


#28. Joachim Patenier, fragmento de pintura.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Memória

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Ao terreiro deserto desce a lua
estende no chão
a verdade tão pura
tão inesquecida.
Mãos sozinhas
cavaram o caminho
por dentro
das trevas
ergueram a voz
que a palavra esperava.
Um anjo
pareceu atravessar
o curto instante,
afrontou talvez
o esquecimento.


#27. Cima da Conegliano, fragmento de pintura

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Uma sombra

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Uma sombra
ocupa o vasto colo
que ousou calar o riso
noutro colo
à beira das praias primitivas.
Sombra espessa
e no entanto
um rasto cintilante
parecia trespassar a noite
desde o tempo das palavras fundas,
uma pétala solta
no espaço sem chão.


#26. Man Ray, fragmento de fotografia.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Silêncio

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Sitiados pelo pensamento longo
tropeçamos
desajeitadamente nas arestas
da palavra,

atiçando o som inabitável
esse grande escriba do deserto.

Não há sol que chegue até aqui,
repara,
não sabemos das árvores
nem sequer do calor das tuas mãos
.
Procuramos de noite

o silêncio dos gatos,
último refúgio dos órfãos.



#25. Jackson Pollock, fragmento de pintura.

Domingo, Outubro 21, 2007

Ano 1
Índice por imagens

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Uma rua

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Atravessa uma rua qualquer
sem medo de tocar em mãos desertas
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Não fujas das vozes que te chamam
aprende a caminhar no chão antigo
e talvez encontres a direcção do vento.

Olha de frente as sombras que são tuas
e vê.



#24. Julia Margaret Cameron, fragmento de fotografia.

Sábado, Outubro 20, 2007

Depois

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Três séculos depois
dir-se-ia o espectro de alguém
procurando-se.


#23. Paul Klee, fragmento de pintura

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Tempo

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Pensar
que tu dormias nos meus olhos,
árvore,
folhagem pousada no vento
e em mim
que sou do vento
e dos muros escolhidos pelos pássaros.
De repente é tudo tão antigo
os bancos das praças
os navios,
ainda ontem estavas nos meus olhos.


#22. Paula Rego, fragmento de pintura.

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Mil anos

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Vou dizê-lo agora,
eram belos os sons que brincaram contigo
e os céus que brilharam nos teus olhos.
Vou dizer que o sol se demora na janela
à espera que o acolhas de manhã
e que o riso vagueia pela casa
à espera que o habites como outrora,
quando não havia espinhos no silêncio.

Mil anos depois,
só eu sou visitado certas noites
pelo anjo que viveu em ti,
rumor de asas mansas
luz que permanece.


#21. Albrecht Altdorfer, fragmento de pintura.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Manhã

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A manhã acorda o rio,
atravessa as ruas todas da cidade,
abre as janelas da casa entorpecida,
fecha a noite. Uns grãos de areia
e eu tenho uma praia, ou uma estrada,
para deixar passar as tuas mãos sobre o meu peito.

Digo para mim,
vou descer as falésias no brilho dos teus olhos
como se a manhã nascesse nos teus olhos,
sem corredores brancos,
sem palavras de sal,
a tua luz tecendo um chão de seda.

Cresço até ao cimo dos lugares,
uma lágrima solta ou um sorriso,
os meus passos à escuta
no caminho antigo das searas.


#20. Peter Segley, obra não-fragmentada.

Sábado, Agosto 04, 2007

Chão

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Deixa a erva crescer

à volta dos teus passos,

desenha devagar o teu chão

e caminha em silêncio.


Abram-se as tuas mãos

como se fossem asas sobre as serras
,
soltem-se os teus dedos

nas páginas dos livros que cintilam

no cimo do mar.


#19. Lourdes Castro, fragmento de prova heliográfica.

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Vento

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Aquelas tardes
nasciam do vento
e eu pensava guardá-las para cobrir os ombros
ou atravessar as ruas,

porque o vento conversava com as árvores

e os teus olhos brilhavam

para os meus.


Queria que o riso crescesse

por causa da memória do ar

e do teu rosto

ao de leve na luz.


#18. Ângelo de Sousa, fragmento de pintura.

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Tanto tempo de joelhos

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Tinha chegado a noite,
era enorme e tinha corpos mudos
e vozes
como pedras desabadas de repente.
Sons irreparáveis.

Certos passos na escada permanecem,
mas era Inverno quando veio o medo
e o teu colo carregou-se de nuvens.
Era tarde,
estava tudo dito
e no entanto
eu queria olhar para o teu rosto
pela última vez.

Um dia hei-de guardar-te nos meus ombros
e cobrir de pétalas os teus caminhos,
tanto tempo de joelhos morrerei.


#17. Thomas Joshua Cooper, fragmento de fotografia.

Domingo, Maio 06, 2007

É este o dia

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É este o dia
para recordar os caminhos
que percorreste até à minha porta.
Desses caminhos
e do manto que teceste,
o manto em que guardavas a memória,
resta a luz das praias no inverno
e algumas pedras cobertas de musgo.
Resta a tua voz no princípio da terra,
os muros altos dos antepassados,
um leve bater de asas.


#16. Piero della Francesca, fragmento de pintura.