domingo, outubro 21, 2007

Uma rua

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Atravessa uma rua qualquer
sem medo de tocar em mãos desertas
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Não fujas das vozes que te chamam
aprende a caminhar no chão antigo
e talvez encontres a direcção do vento.

Olha de frente as sombras que são tuas
e vê.



#24. Julia Margaret Cameron, fragmento de fotografia.

sábado, outubro 20, 2007

Depois

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Três séculos depois
dir-se-ia o espectro de alguém
procurando-se.


#23. Paul Klee, fragmento de pintura

sexta-feira, outubro 05, 2007

Tempo

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Pensar
que tu dormias nos meus olhos,
árvore,
folhagem pousada no vento
e em mim
que sou do vento
e dos muros escolhidos pelos pássaros.
De repente é tudo tão antigo
os bancos das praças
os navios,
ainda ontem estavas nos meus olhos.


#22. Paula Rego, fragmento de pintura.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Mil anos

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Vou dizê-lo agora,
eram belos os sons que brincaram contigo
e os céus que brilharam nos teus olhos.
Vou dizer que o sol se demora na janela
à espera que o acolhas de manhã
e que o riso vagueia pela casa
à espera que o habites como outrora,
quando não havia espinhos no silêncio.

Mil anos depois,
só eu sou visitado certas noites
pelo anjo que viveu em ti,
rumor de asas mansas
luz que permanece.


#21. Albrecht Altdorfer, fragmento de pintura.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Manhã

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A manhã acorda o rio,
atravessa as ruas todas da cidade,
abre as janelas da casa entorpecida,
fecha a noite. Uns grãos de areia
e eu tenho uma praia, ou uma estrada,
para deixar passar as tuas mãos sobre o meu peito.

Digo para mim,
vou descer as falésias no brilho dos teus olhos
como se a manhã nascesse nos teus olhos,
sem corredores brancos,
sem palavras de sal,
a tua luz tecendo um chão de seda.

Cresço até ao cimo dos lugares,
uma lágrima solta ou um sorriso,
os meus passos à escuta
no caminho antigo das searas.


#20. Peter Segley, obra não-fragmentada.

sábado, agosto 04, 2007

Chão

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Deixa a erva crescer

à volta dos teus passos,

desenha devagar o teu chão

e caminha em silêncio.


Abram-se as tuas mãos

como se fossem asas sobre as serras
,
soltem-se os teus dedos

nas páginas dos livros que cintilam

no cimo do mar.


#19. Lourdes Castro, fragmento de prova heliográfica.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Vento

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Aquelas tardes
nasciam do vento
e eu pensava guardá-las para cobrir os ombros
ou atravessar as ruas,

porque o vento conversava com as árvores

e os teus olhos brilhavam

para os meus.


Queria que o riso crescesse

por causa da memória do ar

e do teu rosto

ao de leve na luz.


#18. Ângelo de Sousa, fragmento de pintura.

quarta-feira, maio 30, 2007

Tanto tempo de joelhos

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Tinha chegado a noite,
era enorme e tinha corpos mudos
e vozes
como pedras desabadas de repente.
Sons irreparáveis.

Certos passos na escada permanecem,
mas era Inverno quando veio o medo
e o teu colo carregou-se de nuvens.
Era tarde,
estava tudo dito
e no entanto
eu queria olhar para o teu rosto
pela última vez.

Um dia hei-de guardar-te nos meus ombros
e cobrir de pétalas os teus caminhos,
tanto tempo de joelhos morrerei.


#17. Thomas Joshua Cooper, fragmento de fotografia.

domingo, maio 06, 2007

É este o dia

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É este o dia
para recordar os caminhos
que percorreste até à minha porta.
Desses caminhos
e do manto que teceste,
o manto em que guardavas a memória,
resta a luz das praias no inverno
e algumas pedras cobertas de musgo.
Resta a tua voz no princípio da terra,
os muros altos dos antepassados,
um leve bater de asas.


#16. Piero della Francesca, fragmento de pintura.

segunda-feira, março 12, 2007

Cão pobre

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Conhecia os gestos

que atravessam a ausência

e respirava, por assim dizer,

no fundo de um gemido. Cão pobre.
Ouvia o seu nome

e o gemido embatia
nos lábios do homem
e os seus olhos eram dois enigmas,
duas luas mudas, duas noites

dentro do olhar do homem.


A voz disse:

eis a sombra da terra,
o caminho da mãe.

E o homem curvou-se sobre o cão,

homem pobre abraçando o olhar deserto.


Voz antiga:

recebe o mistério do tempo,

escuta os passos da mãe.


#15. Helena Almeida, fragmento de fotografia.

quarta-feira, março 07, 2007

Ouve o som

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Ouve o som levíssimo das árvores
subindo até à chuva,
o silêncio mais puro.
Pronuncia o inverno,
as solitárias sílabas do frio,
no coração do vento há sempre barcos
e aves que estremecem na proa,
a íntima altitude da memória,
a própria ausência
que os teus braços guardam.


#14. Yves Klein, fragmento de objecto.

sábado, março 03, 2007

Observa

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Observa o fundo dos meus olhos
e verás estradas para o teu silêncio
e as portas altas que batiam contra o vento
e as escadas
onde me esperava o teu sorriso.

Naquelas tardes não dormias assim,
dormias no sussurro das saias
que brincavam nas tuas mãos luminosas.

E os pássaros
atravessavam
os céus abertos das janelas

e tu não dormias assim.


#13. Constantin Brancusi, fragmento de escultura.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Medo

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A claridade
alastra nos ângulos da rua,

as sombras nocturnas dão lugar

a simetrias nítidas.

Define-se a certeza geométrica,

a linha exacta dos limites visíveis,
o conforto da regra.

Um pombo de repente transversal

atravessa a precisão das esquadrias

abrindo no centro do olhar

a fronteira efémera do medo.


#12. Piet Mondrian, fragmento de pintura.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Se os meus ombros

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Se os meus ombros criaram movimento algum
neste dia entre todos,
que vejas mais alto as forças do silêncio
e o chão que espera os teus pés
ou a estrada que pertence aos teus passos.

Serão talvez guardadas na memória dos muros
as pedrinhas que ficaram por apanhar,
uma só linha sobre tudo o que existe,
as folhas ao vento
ou o cão na longínqua madrugada.

Que encontres nas raízes
a raiz até à luz das árvores,
que levantes o rosto
ao choro das mulheres
à inocência de certas palavras

ao som das laranjas rolando na erva.


#11. Edward Weston, fragmento de fotografia.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Devagar

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Devagar
te entregas aos meus passos
te recolhes no meu peito
abraçados atravessámos séculos,
pedra a pedra a casa que me deste.
Respiras
na vastidão que te habita agora

o ar grande
o mistério do mar. Mil anos.
Nas noites sem lua
devagar pronuncias o meu nome.


#10. Michael Biberstein, fragmento de pintura.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Permaneces

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Permaneces
silêncio antiquíssimo
dentro de cada palavra,
se existe infinito
que venha de manhã
à janela que se inclina para o frio
à neblina que vagueia sobre a terra
às folhas mudas dos teus olhos.
Não faças nada
fica assim
dormindo o sono manso.


#9. Peter Fink, fragmento de fotografia.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Agora vai

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Agora vai.
Pega ao colo o que herdaste
a cor do rosmaninho
o cheiro das maçãs
e vai.
Se subires ao alto do vento
entras no inverno com a mansidão dos livros.
Deixa a chuva escorrer pelos teus medos
estende os braços às sombras transeuntes
e abre o teu sorriso.
Segue a rota dos barcos de papel,
as asas das gaivotas e dos corvos,
a ponte verdadeira.
Despede-te de nada
e caminha.
Observa o rio,
as suas águas correm para o teu olhar.



#8. Edward Steichen, fragmento de fotografia.

domingo, novembro 26, 2006

Cesariny

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Cesariny artista poeta
já deixou de morrer.


#7. Mário Cezariny, fragmento de pintura.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Coloca as tuas mãos

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Coloca as tuas mãos sobre a pedra
coloca de frente para o mar os muros
que cercam os corpos
aceita a noite que os habita
e sorri. Verás que as aves
fazem ninho sobre os muros
e sob as tuas mãos se desenha
a rara luz.


#6. José M. Rodrigues, fragmento de fotografia.

domingo, novembro 12, 2006

Na casa de seus pais

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Na casa de seus pais nasceu a palavra
porta perfeita na luz que crescia.

Sobre essa palavra digo filha
dos meus ombros de água
filha
cercando o manso olhar o leve movimento

sem um som.


#5. Nuno Gonçalves, fragmento de pintura.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Era noite

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Era noite,
a terra parecia recolhida no silêncio
e nós éramos pássaros com medo e com sede.
Alto céu, não tínhamos asas nem água,
apenas as estradas longínquas
e as sombras assustadoras.

Nas varandas não havia lua.
Debaixo dos telhados desertos
nem sequer passos disso me lembro,
nem um berço,
apenas a memória do teu rosto
e de certas palavras, certos sons.

É tarde, não me olhes assim.
N
ão tivémos asas
não abrimos os livros caídos no chão frio
não salvámos nada
a não ser o mistério nos teus olhos
desenhando o absoluto.


#4. Lourdes Castro, fragmento de desenho.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Outubro

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Outubro regressa,
límpido silêncio.

Amada que te vais,
carregando nos olhos
outro adeus.


#3. Bernini, fragmento de escultura.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Estrada

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Estrada,
inabitada terra nos meus ombros.

Abro os olhos para a tua dor,
sem água, sem som.

Perdoa: nada sei dos muros crescendo
no deserto.


#2. Julião Sarmento, fragmento de pintura.

sábado, outubro 21, 2006

Perguntou muitas vezes

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Perguntou muitas vezes 
porque corres
porque não escutas a terra.
Se eu aprendia ficava contente
brincávamos meninos toda a vida.

Naquele dia 

estendeu-se comigo no chão

juntou os seus olhos aos meus.

E os séculos irromperam pela casa
e selaram o seu corpo
e o seu corpo para sempre disse:
não esqueças.


#1. Giotto, fragmento de fresco.