quarta-feira, maio 30, 2007

Tanto tempo de joelhos

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Tinha chegado a noite,
era enorme e tinha corpos mudos
e vozes
como pedras desabadas de repente.
Sons irreparáveis.

Certos passos na escada permanecem,
mas era Inverno quando veio o medo
e o teu colo carregou-se de nuvens.
Era tarde,
estava tudo dito
e no entanto
eu queria olhar para o teu rosto
pela última vez.

Um dia hei-de guardar-te nos meus ombros
e cobrir de pétalas os teus caminhos,
tanto tempo de joelhos morrerei.


#17. Thomas Joshua Cooper, fragmento de fotografia.

domingo, maio 06, 2007

É este o dia

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É este o dia
para recordar os caminhos
que percorreste até à minha porta.
Desses caminhos
e do manto que teceste,
o manto em que guardavas a memória,
resta a luz das praias no inverno
e algumas pedras cobertas de musgo.
Resta a tua voz no princípio da terra,
os muros altos dos antepassados,
um leve bater de asas.


#16. Piero della Francesca, fragmento de pintura.

segunda-feira, março 12, 2007

Cão pobre

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Conhecia os gestos

que atravessam a ausência

e respirava, por assim dizer,

no fundo de um gemido. Cão pobre.
Ouvia o seu nome

e o gemido embatia
nos lábios do homem
e os seus olhos eram dois enigmas,
duas luas mudas, duas noites

dentro do olhar do homem.


A voz disse:

eis a sombra da terra,
o caminho da mãe.

E o homem curvou-se sobre o cão,

homem pobre abraçando o olhar deserto.


Voz antiga:

recebe o mistério do tempo,

escuta os passos da mãe.


#15. Helena Almeida, fragmento de fotografia.

quarta-feira, março 07, 2007

Ouve o som

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Ouve o som levíssimo das árvores
subindo até à chuva,
o silêncio mais puro.
Pronuncia o inverno,
as solitárias sílabas do frio,
no coração do vento há sempre barcos
e aves que estremecem na proa,
a íntima altitude da memória,
a própria ausência
que os teus braços guardam.


#14. Yves Klein, fragmento de objecto.

sábado, março 03, 2007

Observa

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Observa o fundo dos meus olhos
e verás estradas para o teu silêncio
e as portas altas que batiam contra o vento
e as escadas
onde me esperava o teu sorriso.

Naquelas tardes não dormias assim,
dormias no sussurro das saias
que brincavam nas tuas mãos luminosas.

E os pássaros
atravessavam
os céus abertos das janelas

e tu não dormias assim.


#13. Constantin Brancusi, fragmento de escultura.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Medo

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A claridade
alastra nos ângulos da rua,

as sombras nocturnas dão lugar

a simetrias nítidas.

Define-se a certeza geométrica,

a linha exacta dos limites visíveis,
o conforto da regra.

Um pombo de repente transversal

atravessa a precisão das esquadrias

abrindo no centro do olhar

a fronteira efémera do medo.


#12. Piet Mondrian, fragmento de pintura.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Se os meus ombros

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Se os meus ombros criaram movimento algum
neste dia entre todos,
que vejas mais alto as forças do silêncio
e o chão que espera os teus pés
ou a estrada que pertence aos teus passos.

Serão talvez guardadas na memória dos muros
as pedrinhas que ficaram por apanhar,
uma só linha sobre tudo o que existe,
as folhas ao vento
ou o cão na longínqua madrugada.

Que encontres nas raízes
a raiz até à luz das árvores,
que levantes o rosto
ao choro das mulheres
à inocência de certas palavras

ao som das laranjas rolando na erva.


#11. Edward Weston, fragmento de fotografia.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Devagar

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Devagar
te entregas aos meus passos
te recolhes no meu peito
abraçados atravessámos séculos,
pedra a pedra a casa que me deste.
Respiras
na vastidão que te habita agora

o ar grande
o mistério do mar. Mil anos.
Nas noites sem lua
devagar pronuncias o meu nome.


#10. Michael Biberstein, fragmento de pintura.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Permaneces

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Permaneces
silêncio antiquíssimo
dentro de cada palavra,
se existe infinito
que venha de manhã
à janela que se inclina para o frio
à neblina que vagueia sobre a terra
às folhas mudas dos teus olhos.
Não faças nada
fica assim
dormindo o sono manso.


#9. Peter Fink, fragmento de fotografia.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Agora vai

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Agora vai.
Pega ao colo o que herdaste
a cor do rosmaninho
o cheiro das maçãs
e vai.
Se subires ao alto do vento
entras no inverno com a mansidão dos livros.
Deixa a chuva escorrer pelos teus medos
estende os braços às sombras transeuntes
e abre o teu sorriso.
Segue a rota dos barcos de papel,
as asas das gaivotas e dos corvos,
a ponte verdadeira.
Despede-te de nada
e caminha.
Observa o rio,
as suas águas correm para o teu olhar.



#8. Edward Steichen, fragmento de fotografia.

domingo, novembro 26, 2006

Cesariny

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Cesariny artista poeta
já deixou de morrer.


#7. Mário Cezariny, fragmento de pintura.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Coloca as tuas mãos

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Coloca as tuas mãos sobre a pedra
coloca de frente para o mar os muros
que cercam os corpos
aceita a noite que os habita
e sorri. Verás que as aves
fazem ninho sobre os muros
e sob as tuas mãos se desenha
a rara luz.


#6. José M. Rodrigues, fragmento de fotografia.

domingo, novembro 12, 2006

Na casa de seus pais

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Na casa de seus pais nasceu a palavra
porta perfeita na luz que crescia.

Sobre essa palavra digo filha
dos meus ombros de água
filha
cercando o manso olhar o leve movimento

sem um som.


#5. Nuno Gonçalves, fragmento de pintura.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Era noite

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Era noite,
a terra parecia recolhida no silêncio
e nós éramos pássaros com medo e com sede.
Alto céu, não tínhamos asas nem água,
apenas as estradas longínquas
e as sombras assustadoras.

Nas varandas não havia lua.
Debaixo dos telhados desertos
nem sequer passos disso me lembro,
nem um berço,
apenas a memória do teu rosto
e de certas palavras, certos sons.

É tarde, não me olhes assim.
N
ão tivémos asas
não abrimos os livros caídos no chão frio
não salvámos nada
a não ser o mistério nos teus olhos
desenhando o absoluto.


#4. Lourdes Castro, fragmento de desenho.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Outubro

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Outubro regressa,
límpido silêncio.

Amada que te vais,
carregando nos olhos
outro adeus.


#3. Bernini, fragmento de escultura.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Estrada

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Estrada,
inabitada terra nos meus ombros.

Abro os olhos para a tua dor,
sem água, sem som.

Perdoa: nada sei dos muros crescendo
no deserto.


#2. Julião Sarmento, fragmento de pintura.

sábado, outubro 21, 2006

Perguntou muitas vezes

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Perguntou muitas vezes 
porque corres
porque não escutas a terra.
Se eu aprendia ficava contente
brincávamos meninos toda a vida.

Naquele dia 

estendeu-se comigo no chão

juntou os seus olhos aos meus.

E os séculos irromperam pela casa
e selaram o seu corpo
e o seu corpo para sempre disse:
não esqueças.


#1. Giotto, fragmento de fresco.