sexta-feira, março 27, 2009

Agora

.
.
.



Hoje quero lembrar
as estradas percorridas
entre a terra e o céu e o sonho,
isto aconteceu
quando havia infinito.
O chão era chão
eram nossos os passos
e mesmo o silêncio
consistentemente entretecia
a força da palavra.
Não havia casas sem janelas
nem portas vedadas ao frio dos teus ombros,
isto aconteceu
quando havia infinito.
Agora há o tempo,
as árvores partiram com os pássaros.
Todas as noites nos levam
para longe das estradas
e dos livros que morreram.
Todas as noites a lua
ilumina o lugar que ficou.


#39. Vittore Carpaccio, fragmento de pintura.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

De noite

.
.
.



Enfrentas os olhares
com o teu sorriso de presença,
rosto virtual do teu anonimato,
a máscara do medo.
Talvez por isso chores quando chove
e o céu pesadamente se transforma
no telhado opaco da paisagem.
Talvez por isso grites
no silêncio das noites,
como se escorresse chuva
do teu próprio peito.

Dorme,
deixa o pensamento flutuar
na memória dos sons.



#38. Hans Hartung, fragmento de desenho.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Passos

.
.
.



Atravesso outra vez estas portas
à procura da sombra longínqua
que havia nas searas
e nos olhos voltados para sul,
atravesso os ventos
em direcção ao princípio das coisas
sem saber que coisas são,
talvez lugares
ou seres parados a meio do caminho
rente aos séculos das árvores.
O pensamento desce até ao chão
onde o som dos teus passos permanece
pedra a pedra enfrentando o silêncio.



#37. Mark Rothko, fragmento de pintura.

terça-feira, outubro 21, 2008

segunda-feira, outubro 20, 2008

Disse

.
.
.



Eu disse sem esforço
a palavra remota
e a barca emergiu da maresia
.
Dolorosa ternura
na distância das serras caladas,
uma sombra suspensa para toda a vida
e em cada noite
a tua mão tão pura.


#36. Anónimo (c.1900), fragmento de fotografia.

sábado, outubro 04, 2008

Ponte

.
.
.



Vem de longe o teu medo
em tão alta torre recolhido, tu dizes
que não sabes viver ao pé de ti, mas repara
na amplitude das pontes quando aceitas
os gritos que te cercam,
a tenebrosa noite.
Repara nos filhos que te dão à luz
pela permanência de uma pétala,
uma pétala apenas
da flor que recita o teu caminho.


#35. Fernando Lemos, fragmento de fotografia.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Ela

.
.
.


Ela abria as asas
de manhã
para voar ao sol por cima dos telhados
e eu pensava que os anjos

eram aves que voavam como ela.

Nas varandas o seu riso cintilava

com o céu por cima parecia deusa

mas também chorava e parecia louca

e de noite lia grandes livros
talvez morassem sábios dentro dela.


Quando a neve lhe cobriu o peito

ela estendeu-se ao longo dos caminhos
quase rainha num trono rente à terra

e eu vi folhas de vida, digo assim,
a desprender-se dela
árvore ao vento

onde de repente anoiteceu.


#34. Manuel Zimbro, fragmento de pintura.

domingo, agosto 17, 2008

As casas

.
.
.



De noite as casas saem dos esconderijos,
curvam-se sobre a solidão dos seres
e os seres correm desvairados
gritando inocência.
As casas atiram o silêncio contra a noite,
rasgam as páginas dos livros sagrados
e no fundo insuportável dos corredores
os seres solitários
começam a abrir os braços lentamente
e a visitação desce sobre eles
e então as casas sossegam
para guardar a luz mansa de outros seres
que nelas renasceram para sempre.


#33. Johannes Vermeer, fragmento de pintura

segunda-feira, julho 14, 2008

Rasto

.
.
.



Viemos de longe
e não soubemos lavrar as terras
em que os teus olhos se deitaram.
Não colhemos um só ramo de roseira
enquanto percorremos o teu rasto,
enquanto procurámos os teus passos
no mistério das pedras. E eu pergunto
quem resgatará o sonho que o menino chora,
quem abrirá as portas à breve sombra
do gato que chama da infância,
quem passará mil noites
à escuta de tão manso respirar.


#32. Rui Chafes, fragmento de escultura.

domingo, maio 25, 2008

Vidro

.
.
.



Ela sorria através do vidro baço,
a chuva a bater-lhe no pensamento aberto
das estradas.
Na outra margem da memória
o homem encostou-se ao olhar dela
e a voz infinita
atravessou a chuva: mãe,

porque me olhas assim?

No deserto de água o homem
a olhar e a sorrir,
a mulher a recolher-se aos olhos dele
e a voz solitária da viagem
a crescer dentro da chuva: filha,
porque me esperas assim?


#31. Giorgione, fragmento de pintura.

domingo, abril 27, 2008

Dia

.
.
.


De súbito os sítios não estão onde estavam,
o tempo que se perde antes de olhar
as casas pouco a pouco tão secretas.
De tudo o que ficou pelo caminho
o pensamento guardou algumas vozes,
a claridade dos primeiros muros
onde o vento que vinha de longe
se demorava na nitidez dos sons.
Folheados em noites distantes
só os livros permanecem nas casas
como estátua pura,
rastos de luz a percorrer o dia.


#30. Joaquim Bravo, fragmento de pintura.

domingo, março 09, 2008

Sei

.
.
.



Sim, guardo os séculos
que os teus dedos teceram.
Conservo as tuas flores
nas casas decepadas,

varandas atiradas contra o vento,

portas abertas à terra
à nascente dos rios
aos caminhos
que os teus passos percorreram.


Sei agora que nunca morreste,
vejo os teus olhos antigos de menina
adormeço no teu vestido frio.


#29. Laszlo Moholy-Nagy, fragmento de fotografia

segunda-feira, março 03, 2008

Mater

.
.
.


As crianças quando nascem
vão morar no alto
dos pássaros e dos ramos
das árvores grandes
que tornam infinitos os jardins.


Por vezes as crianças

descem às nossas sombras
para nos confiar leves segredos.
Se ouvires o que diz o riso delas
sentirás o vento
que dança no cimo do mar.

Se olhares a luz que te procura
pede à luz uma flor.


#28. Joachim Patenier, fragmento de pintura.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Memória

.
.
.


Ao terreiro deserto desce a lua
estende no chão
a verdade tão pura
tão inesquecida.
Mãos sozinhas
cavaram o caminho
por dentro
das trevas
ergueram a voz
que a palavra esperava.
Um anjo
pareceu atravessar
o curto instante,
afrontou talvez
o esquecimento.


#27. Cima da Conegliano, fragmento de pintura

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Uma sombra

.
.
.


Uma sombra
ocupa o vasto colo
que ousou calar o riso
noutro colo
à beira das praias primitivas.
Sombra espessa
e no entanto
um rasto cintilante
parecia trespassar a noite
desde o tempo das palavras fundas,
uma pétala solta
no espaço sem chão.


#26. Man Ray, fragmento de fotografia.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Silêncio

.
.
.



Sitiados pelo pensamento longo
tropeçamos
desajeitadamente nas arestas
da palavra,

atiçando o som inabitável
esse grande escriba do deserto.

Não há sol que chegue até aqui,
repara,
não sabemos das árvores
nem sequer do calor das tuas mãos
.
Procuramos de noite

o silêncio dos gatos,
último refúgio dos órfãos.



#25. Jackson Pollock, fragmento de pintura.

domingo, outubro 21, 2007